O presidente Lula (PT) terá pela frente uma “missão impossível” no estado considerado como o mais decisivo das eleições no Brasil, no próximo domingo (25). A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) em Minas Gerais no primeiro turno foi maior do que a obtida em todo o país e, para conseguir uma inédita virada, Lula precisa vencer o adversário no “estado-pêndulo”.
No último dia 4, Flávio teve 48,2% dos votos válidos em Minas Gerais; Lula 43,3%. Desde a redemocratização do país, todos os presidentes eleitos venceram nas urnas mineiras, o que coloca o segundo maior colégio eleitoral do país como peça-chave para os concorrentes rumo ao Palácio do Planalto.
Tanto é que, na última semana, Flávio e Lula fizeram campanha no estado ao lado de aliados de peso. O candidato do PL foi até o Vale do Jequitinhonha, reduto eleitoral petista, para um comício na cidade de Capelinha, onde ele venceu no primeiro turno. “O Brasil quer mudança e eles vão ter que aturar o Bolsonaro subindo a rampa da Presidência da República. […] Eles tentaram enterrar o Bolsonaro vivo achando que iam calar o nosso sentimento”, declarou Flávio no palanque na quinta-feira (15).
Durante o evento, o presidenciável foi apresentado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), principal cabo eleitoral do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro no estado. O parlamentar foi o candidato a deputado federal mais votado do país, com 3,1 milhões de votos.
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Minas Gerais retrata polarização regional
O cientista político mineiro Adriano Cerqueira, professor do IBMec em Belo Horizonte, explica que Minas Gerais tem a peculiaridade de retratar o posicionamento político de diferentes nichos de eleitores. Apesar da vitória de Flávio no estado, Lula venceu no Vale do Jequitinhonha, região com forte influência do Nordeste, e na Zona da Mata, onde está localizada a cidade de Juiz de Fora. O maior município da região é administrado pela prefeita petista Margarida Salomão e recebeu Lula na última sexta-feira (16).
No mesmo dia, o presidente fez uma caminhada em Ipatinga, no Vale do Aço, ao lado da senadora eleita Marília Campos (PT), um dos principais nomes do partido no estado. Ex-prefeita de Contagem — segunda maior cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, atrás apenas da capital —, Marília Campos foi reeleita com mais de 60% dos votos válidos no primeiro turno das eleições 2024. Ela deixou o cargo no último mês de março para disputar o Senado.
“O presidente Lula terá que procurar alianças regionais. No norte de Minas, ele vai procurar lideranças locais, movimentos de base ligados à Igreja Católica, para conseguir palanque”, avalia Adriano Cerqueira. Nas redes sociais, um dos principais aliados do petista é o deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo grupo de mensagens “Exército do Lula”, que conta com mais de 4,5 milhões de seguidores.
Por outro lado, Flávio venceu na capital e na região metropolitana de Belo Horizonte, onde está concentrado cerca de 30% do eleitorado. Cerqueira aponta que o sul de Minas é a segunda região mais relevante do estado nas urnas, com aproximadamente 15% dos eleitores.
No primeiro turno, Flávio venceu nas principais cidades da região, entre elas Poços de Caldas e Pouso Alegre, localizadas próximas à divisa com São Paulo. “Para obter uma boa votação em Minas Gerais, é preciso rodar o estado e saber diferenciar as regiões. O sul tem uma realidade socioeconômica diferente do Triângulo Mineiro e do norte de Minas, por exemplo. Para conseguir esses votos, é preciso atravessar todo o estado — a regionalidade acaba fazendo com que Minas represente um pouco o Brasil”, analisa.
Vitória de Cleitinho no 1º turno favorece Flávio em Minas Gerais
Quem conseguiu a adesão do eleitorado em diferentes regiões foi o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), eleito governador mineiro no primeiro turno, com 55,4% dos votos válidos. Após a vitória, Azevedo reforçou o apoio a Flávio Bolsonaro, que ele já havia anunciado no primeiro turno, apesar da candidatura estadual do empresário Flávio Roscoe pelo PL.
O resultado das urnas impactou nos planos de Lula, que apostava na manutenção do palanque petista em Minas Gerais. O PT lançou o nome de Patrus Ananias, que fez 26,2% dos votos válidos, ficando em segundo lugar. “Muitos eleitores bolsonaristas votaram no Cleitinho, pois não queriam dar palanque para o Lula no segundo turno, repetindo o voto útil anti-PT, como aconteceu na eleição nacional”, compara o cientista político.
Cerqueira lembra que a aliança formal entre Cleitinho e Flávio foi adiada no primeiro turno, principalmente pela indefinição da candidatura pelo Republicanos, que foi confirmada no final do prazo de registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Quando ele conseguiu sacramentar a candidatura pelos Republicanos, a primeira declaração dele foi apoio ao Flávio para não correr o risco de perder boa parte do eleitorado para o governador Mateus Simões (PSD) ou para o Roscoe”, recorda.
Segundo o cientista político, a aliança é uma aposta de Cleitinho Azevedo para renegociar a dívida do estado com o governo federal, caso Flávio seja eleito presidente, e para contar com apoio do PL na base governista da Assembleia Legislativa mineira.
“O Cleitinho tem sido estratégico nas declarações políticas e alianças. Por outro lado, ele ainda não se acostumou com a roupa de governador recém-eleito”, disse. Como exemplo, Cerqueira citou o vídeo publicado pelo governador eleito. Na publicação, Cleitinho está ao lado de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e se declara a favor da votação da Proposta de Emenda à Constituição que acabou com a escala 6×1.
No mesmo dia, Azevedo publicou um vídeo do encontro com Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e com o senador eleito Domingos Sávio (PL-MG). “Fiz esse compromisso na campanha e pode ter certeza que vou honrar o povo mineiro. O dinheiro da dívida de Minas será gasto em Minas”, afirma o governador eleito.
Fonte: Gazeta do Povo


