O PT decidiu lançar candidato próprio ao governo de Minas Gerais — e já escolheu quem não quer a tarefa. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos, favorita de Lula para encabeçar a chapa, reagiu à decisão do partido com um posicionamento público no qual classifica a candidatura própria como um “equívoco estratégico”.
No comunicado, Marília Campos argumentou que o melhor caminho seria uma aliança ampla, não uma candidatura própria: “A realidade política de Minas e os desafios de 2026 exigem capacidade de diálogo, construção de consensos e alianças amplas. Reproduzir uma disputa fortemente polarizada tende a recolocar no centro do debate conflitos que pouco contribuem para enfrentar os problemas concretos dos mineiros, além de dificultar a formação de uma maioria política capaz de sustentar o projeto democrático liderado pelo presidente Lula”, defende ela.
O partido não tem nenhum nome com grande viabilidade eleitoral para este ano e ainda não apresentou nenhum pré-candidato oficialmente para o estado que é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, atrás apenas de São Paulo. Ou seja, o caminho para candidatura própria em Minas está relacionado com a tentativa de garantir algum palanque para o próprio Lula no estado-chave para as eleições nacionais.
A decisão sobre o lançamento de um nome próprio para disputar as eleições mineiras foi tomada em reunião com integrantes do PT de Minas na última quarta-feira (24), em Brasília. “O entendimento construído coletivamente reafirma uma resolução decidida há um mês de que o Partido dos Trabalhadores vai apresentar uma candidatura própria em Minas Gerais. As definições sobre esse projeto serão construídas nos próximos dias, a partir do diálogo entre o partido e as forças políticas comprometidas com um projeto democrático e popular para o estado”, afirmou em nota a deputada estadual Leninha, presidente do PT-MG, logo após a reunião.
“Efeito Pacheco” em Minas
A ideia do nome próprio ao PT de Minas é um improviso e arremedo de “plano B”, depois que o favorito de Lula para a missão, o senador Rodrigo Pacheco (PSB), desistiu da disputa após meses de negociações e indefinição. No final de maio, Pacheco anunciou que não vai sair candidato ao governo de Minas Gerais.
E não só isso: Pacheco disse que pretende encerrar a vida pública ao final do mandato como senador no início de 2027. “Tenho uma vida plenamente realizada e é sempre o momento da gente avaliar ciclos. Há um fechamento de ciclo na política que eu decidi fazer com o sentimento de dever cumprido”, afirmou Pacheco na ocasião durante um evento do Lide, grupo de líderes empresariais fundado por João Doria, ex-governador de São Paulo pelo PSDB.
O ex-presidente do Senado afirmou que a decisão é definitiva e descartou tanto uma candidatura ao Palácio Tiradentes, sede do governo mineiro, quanto uma eventual indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF).
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Marília Campos seria “candidatura de sacrifício”
Sem poder contar com um palanque mais centrista em Minas e sem um outro nome aliado ou próprio com chances claras de vitória, o PT optou por lançar uma “candidatura de sacrifício”, alguém que concorre mais para dar suporte a outro candidato, no caso Lula, do que para ganhar em si. A ex-prefeita de Contagem é a representante do PT mais cotada e seria a favorita de Lula para a tarefa.
Marília, no entanto, além de não ter ficado animada com a possibilidade, não dá mostras de que irá ceder. Ela não participou da reunião na capital federal. No comunicado divulgado à imprensa um dia depois da decisão partidária, na quinta-feira (25), ela afirma que sua única disponibilidade é para concorrer a uma cadeira no Senado — no Instagram, por exemplo, a petista continua se apresentando como pré-candidata ao cargo legislativo por Minas Gerais —, para onde tem mais chances de se eleger.
Ela deixou a prefeitura de Contagem em março para dedicar-se à pré-campanha ao Senado. “Trata-se de uma pré-candidatura estratégica porque Minas não possui senadores da base do presidente Lula e porque representa um importante avanço na presença feminina em cargos majoritários”, diz no comunicado divulgado à imprensa. “Essa é a única disponibilidade política colocada por Marília para a disputa de 2026 e o palanque petista capaz de contribuir para a reeleição do presidente Lula no estado”.
Ela declarou que as pesquisas eleitorais mostram que o campo progressista ainda não conseguiu consolidar uma candidatura competitiva ao Executivo mineiro. Para ela, em vez de ter candidatura própria, o melhor caminho seria o PT liderar a construção de uma “aliança ampla e competitiva”, que reuniria também PCdoB, PV, PSB, MDB, REDE, PSOL e PDT.
Sondagem eleitoral divulgada pelo instituto Real Time Big Data no dia 21 de maio mostra que o pré-candidato Cleitinho (Republicanos) lidera os três cenários em que aparece, abrindo pelo menos 20 pontos percentuais de vantagem para os demais pré-candidatos. No cenário sem ele, Alexandre Kalil (PDT) lidera.
Nas quatro simulações de segundo turno, todas com a presença de Cleitinho, ele venceria em qualquer situação, seja contra Kalil, Rodrigo Pacheco (PSB), Mateus Simões (PSD) e Gabriel Azevedo (MDB). Para o Senado, Marília Campos (PT) é a mais citada nos dois cenários testados.
Na semana passada, Marília Campos não participou de dois eventos com a presença de Lula em Belo Horizonte e Divinópolis. Cobrada por correligionários, justificou que estava focada na pré-campanha ao Senado e cumpria agenda marcada previamente em outra região, longe dali.
Nos bastidores, no entanto, a ausência foi vista como um recado de que ela não queria ouvir um convite para ser candidata a governadora diretamente do presidente, o que aumentaria ainda mais a pressão interna para que assumisse a tarefa.
- Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa ouviu 1.600 pessoas entre os dias 19 e 20 de março. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº MG-07299/2026.
Fonte: Gazeta do Povo


