Em passagem por Santa Catarina, o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciou a construção de dois túneis no km-232 da BR-101, em Palhoça (SC), na região do Morro dos Cavalos. O projeto prevê três pistas nos dois sentidos e vai custar R$ 2,5 bilhões, custeados a partir de reajustes em tarifas de pedágio. O prazo para início dos trabalhos é de até 12 meses e a conclusão da obra é prevista para 2029.
O trecho de 23 quilômetros, que corta uma aldeia indígena e é margeado por encostas e mata densa, é considerado um gargalo na logística entre Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC) devido aos acidentes frequentes, deslizamentos de terra e interdições.
“É um trecho muito desafiador do ponto de vista da engenharia, do ponto de vista ambiental e que precisa de investimento para garantir segurança para as pessoas, trafegabilidade e fluidez para o trânsito”, pontuou o ministro em entrevista a jornalistas às margens da rodovia, nesta quarta-feira (28).
Outro anúncio feito na ocasião foi a mudança de concessão sobre a extensão da rodovia que vai do km-221 até o km-244, que passará da Arteris Litoral Sul para a Motiva (antiga CCR ViaCosteira). Com a alteração, a nova gestora deve assumir até agosto deste ano a praça de pedágio no limite entre os municípios de Palhoça e Paulo Lopes, que será usada para custear a obra por meio de reajustes gradativos na cobrança. De acordo com Renan Filho, não haverá aumento na tarifa de pedágio até o início das obras.
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Transferência de concessão foi a saída para destravar investimento
Após mais de uma década de impasse, a transferência do trecho entre concessionárias foi a solução técnica aceita pelo governo federal para destravar o investimento bilionário no Morro dos Cavalos. Isso porque a construção dos túneis não estava prevista no contrato original da Arteris Litoral Sul, assinado em 2008.
A proposta de mudança ganhou força em agosto de 2025, durante a revisão quinquenal do contrato da Motiva com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Em audiência pública no município de Capivari de Baixo, região sul de Santa Catarina, a Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina (Fetrancesc) entregou o pedido à agência reguladora.
O principal argumento era de que a Motiva, que opera a BR-101 de Paulo Lopes (SC) até a divisa com o Rio Grande do Sul, teria margem para assumir a obra, visto que as tarifas são mais baixas que as cobradas pela Arteris no segmento norte da rodovia e poderiam ser reajustadas em prol do investimento.
Para o presidente da Fetrancesc, Dagnor Schneider, o anúncio de mudança na concessão e a definição de prazos para a construção dos túneis é um avanço histórico.
“Essa solução técnica anunciada pelo ministro Renan Filho é resultado de muito diálogo e pressão institucional”, afirmou.
Demora por solução provocou perda de competitividade em SC, aponta setor industrial
Para viabilizar a construção dos túneis na região do Morro dos Cavalos, o ministro Renan Filhou afirmou que serão feitas adequações ao projeto do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit), elaborado ainda em 2015, além de atualização de licenças ambientais. A obra inclui viaduto e obras de contenção de encosta.
A solução apresentada para o trecho da rodovia na Grande Florianópolis é aguardada desde 2010, após duplicação da BR-101. Para o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Gilberto Seleme, a demora por uma solução impactou em uma perda de competitividade para o sul de Santa Catarina.
“É difícil medir e é possível que a Fiesc refaça um estudo de impacto sobre isso, mas é certo que muitas empresas tenham se mudado da região sul por conta dos riscos operacionais oferecidos pelo Morro dos Cavalos”, disse Seleme em entrevista à Gazeta do Povo.
Na avaliação da federação estadual, o túnel duplo é a solução mais adequada considerando a importância estratégica do corredor e o crescimento exponencial do entorno, tanto das cidades quanto da atividade econômica e do fluxo de turismo. No entanto, Seleme destaca a necessidade de clareza e transparência sobre o impacto da obra no preço do pedágio.
“Nós vamos monitorar de perto esta questão das tarifas e, principalmente, os prazos. Estamos falando de uma obra que não tem dinheiro público, o que deve acelerar o processo, mas nosso papel vai ser cobrar”, pontuou ele.
“Se ficar pronto, vou bater palma”, provocou Jorginho Mello
O anúncio da obra dos túneis foi acompanhado por um tom crítico do ministro Renan Filho em relação à atuação do governo de Santa Catarina. Durante a coletiva de imprensa, o ministro classificou a proposta apresentada pelo estado em setembro de 2025, orçada em R$ 291 milhões, como uma “ideia feita em PowerPoint“, argumentando que o plano carecia de projetos de engenharia detalhados e do licenciamento ambiental necessário para a execução imediata.
“Hoje é uma marca histórica, um dia histórico, pois o Morro dos Cavalos durante muito tempo foi utilizado como retórica, sendo usado para transferir a responsabilidade”, disse Renan Filho. Ausente na coletiva no Morro dos Cavalos, o governador catarinense, Jorginho Mello (PL), rebateu a fala do ministro durante agenda pública em Forquilhinha, no sul do estado.
“Ele veio dizer que vai ser feito, vai ser passado para outra empresa, que vai cobrar pedágio e vai sair do nosso lombo os dois túneis. Eu quero ver pronto. Se fizer, eu vou bater palma”, respondeu.
A proposta do governo catarinense, agora descartada pelo Ministério dos Transportes, previa um traçado alternativo de 5,2 quilômetros de extensão para o trânsito em direção ao sul, adaptando o traçado atual para atender somente ao fluxo no sentido norte, aumentando o número de faixas na subida do Morro dos Cavalos.
Fonte: Gazeta do Povo

