quinta-feira, 23 abril, 2026

Santa Catarina calcula perda de 90% de ostras na temporada

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Santa Catarina concentra praticamente toda a produção de moluscos do Brasil. Municípios como Florianópolis, Palhoça, Bombinhas e Governador Celso Ramos respondem por mais de 90% da atividade e são estratégicos para o abastecimento do mercado nacional.

Neste momento, porém, o setor enfrenta uma crise sem precedentes, impulsionada pelo aumento das temperaturas. Apenas em 2026, a estimativa é de perda de cerca de 72 milhões de ostras. Como alternativa emergencial, muitos produtores passaram a comercializar exemplares menores, fora do padrão tradicional, conhecidos como “refugo”.

“Santa Catarina sempre foi a matriz da maricultura brasileira, com 97% da produção nacional de moluscos — algo em torno de 8,7 mil toneladas por ano, com valor superior a R$ 48 milhões”, afirma o secretário estadual de Pesca e Aquicultura, Fabiano Muller Silva.

A espécie predominante nos cultivos é a ostra do Pacífico (Crassostrea gigas), adaptada a águas frias e com baixa tolerância a temperaturas elevadas. No último verão, a temperatura do mar, que costuma girar em torno de 28 °C, chegou a picos de 34 °C entre janeiro e fevereiro de 2026. A elevação no termômetro provoca a queda na oxigenação da água e, consequentemente, a mortalidade em massa nas fazendas marinhas.

Diante dos prejuízos, o governo catarinense anunciou uma linha de crédito específica para o setor: serão R$ 40 milhões disponibilizados, com limite de até R$ 50 mil por produtor, sem juros e com prazo de cinco anos para pagamento.

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Santa Catarina procura alternativas para produção de ostras

Pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) já discutem alternativas para reduzir a vulnerabilidade do setor. Entre elas, o desenvolvimento do mercado de carne de ostra cozida — o que permitiria a colheita em períodos mais frios — e o investimento em linhagens mais resistentes ao calor.

“Todos os anos há registro de mortalidade no verão, geralmente entre 30% e 40%. Neste ano, porém, o impacto foi muito superior, com perdas que chegaram a 90%, o que exige medidas urgentes para evitar novos prejuízos”, explica André Novaes, gerente do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Cedap), da Epagri.

A tendência, segundo especialistas, é de que eventos de calor extremo se tornem mais frequentes. Diante desse cenário, entidades como o Ministério da Pesca e Aquicultura, a UFSC, a Epagri e a Secretaria de Agricultura e Pesca se reuniram recentemente para discutir estratégias de adaptação. 

Entre as propostas está a criação de um grupo técnico voltado à abertura de um novo nicho de mercado: a produção, processamento e comercialização de carne de ostra em períodos de temperaturas mais amenas.

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Santa Catarina analisa ostras verdes e potencial para o mercado

Em meio às incertezas, um fenômeno chamou a atenção de produtores e pesquisadores. Ostras cultivadas na baía sul de Florianópolis passaram a apresentar coloração esverdeada, gerando estranhamento entre consumidores, que chegaram a relatar aspecto “mofado” nos moluscos.

A investigação revelou que trata-se da proliferação de microalgas do grupo das diatomáceas, possivelmente da espécie Haslea ostrearia, a mesma encontrada na região francesa de Marennes-Oléron, onde as chamadas huîtres vertes são consideradas uma iguaria sofisticada, com certificação de qualidade.

Essa microalga produz um pigmento azul, a marennina, responsável pela alteração na tonalidade das ostras. Longe de representar risco sanitário, análises iniciais indicam que não há produção de toxinas. Ao contrário, o organismo pode agregar valor nutricional a ostras, vieiras e mexilhões.

“Essa microalga tem grande potencial, inclusive para aplicações biotecnológicas, como na produção de alimentos e na área farmacêutica”, destaca o professor Rafael Diego da Rosa, da UFSC.

O fenômeno já havia sido registrado em Santa Catarina há mais de uma década, mas acabou não sendo aprofundado à época. Agora, os pesquisadores trabalham em duas frentes: confirmar molecularmente a identificação da espécie e entender as condições ambientais que favoreceram seu reaparecimento.

“A ideia é analisar fatores como correntes marítimas, ondas de calor, ventos e outras variáveis ambientais, cruzando esses dados para identificar o que pode ter desencadeado o fenômeno. Com isso, abre-se a possibilidade de reproduzir essas condições em laboratório”, explica o pesquisador Gabriel Filipe Faria Graff.

Se o cultivo controlado da microalga for viabilizado, a maricultura catarinense poderá transformar a crise em oportunidade — agregando valor ao produto e expandindo sua atuação para as indústrias de alimentos e farmacêutica.



Fonte: Gazeta do Povo

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