O funkeiro carioca Oruam está completando 10 dias foragido da polícia — no último dia 3, a 3ª Vara Criminal do Rio de Janeiro determinou a prisão de Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, nome verdadeiro do cantor de 25 anos, após sucessivas violações das medidas cautelares que cumpria após deixar a cadeia, em setembro do ano passado.
Oruam é réu em ação penal que apura tentativa de homicídio qualificado e estava em liberdade com uso de tornozeleira eletrônica por força de liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). No entanto, o próprio STJ retirou a liminar, após relatórios da Coordenação de Monitoração Eletrônica da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) apontarem sucessivas violações das determinações judiciais.
Segundo a decisão do ministro Joel Ilan Paciornik, que determinou a volta do rapper para a cadeia, ele descumpriu o recolhimento domiciliar noturno em diversas datas e apresentou um padrão recorrente de negligência com o equipamento de monitoramento eletrônico, incluindo longos períodos com o dispositivo desligado, somando 66 incidentes registrados entre outubro e novembro de 2025.
Em vídeo publicado nas redes sociais depois de fugir, no próprio dia 3, o rapper alegou que a tornozeleira eletrônica tinha falhas técnicas, e por isso vivia desligando. Oruam registrou diversas tentativas de carregar o aparelho, mas todas, segundo ele, sem sucesso. Após o vídeo, o perfil do fugitivo no Instagram saiu do ar.
No início desta semana foi a vez da mãe dele, Márcia Nepomuceno, ir às redes sociais defender o filho foragido. “Eu sou mãe, mas sou a favor da lei, sou a favor do certo”, afirma ela no vídeo. “Eu sei que houve um descumprimento das medidas cautelares e, mediante isso, foi pedido novamente a prisão do meu filho. Todo mundo viu que ele adoeceu muito. Ele tenta ser forte, tenta mostrar que está bem, mas meu filho adoeceu. Eu quero que ele se entregue”, diz.
A publicação recebeu o apoio de MC Poze do Rodo, outro funkeiro carioca encrencado com a Justiça em liberdade provisória, acusado de relações espúrias com a facção criminosa Comando Vermelho (CV). Ele nega.
“Não há previsão de entrega voluntária”, diz defesa do funkeiro
De acordo com a defesa do funkeiro, a tornozeleira eletrônica dele estava apresentando problemas e ele foi chamado na Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) para trocar o dispositivo. Em nota divulgada à imprensa, os advogados afirmam que “não há previsão de entrega voluntária” nos próximos dias, destacando que a equipe jurídica do rapper está acompanhando de perto todos os trâmites do processo e avaliando possíveis recursos.
Para o advogado criminalista e professor de Direito Penal Ricardo Martins, a decisão de não se apresentar à polícia para cumprimento de determinação judicial e permanecer foragido não constitui um novo crime em si, e em tese não agravaria a situação do procurado.
“A evasão do acusado não gera, por si só, nova tipificação penal, cabendo ao Estado adotar os meios legais para localizá-lo e dar cumprimento à ordem judicial”, diz à Gazeta do Povo. “Desta forma, enquanto o processo não for definitivamente concluído, o réu mantém sua condição jurídica de não culpado”, afirma.
Mauro ao contrário
Criado no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Oruam — que é Mauro, o primeiro nome do artista, ao contrário — é filho de ninguém menos que Márcio dos Santos Nepomuceno, mais conhecido como Marcinho VP, um dos líderes do Comando Vermelho, preso desde 1996.
Pouco se sabe sobre a vida pregressa do jovem até que, por volta de 2020 e 2021, ele estourou na cena musical com uma mistura de trap e funk e letras controversas sobre a vida na favela e o estilo de vida “ostentação” dos traficantes, promovido pela Mainstreet, uma das maiores gravadoras de rap, funk, trap e outros subgêneros do Brasil, fundada pelo rapper Orochi em 2020.
Tudo parecia ir bem para o funkeiro até 2024, quando participou do festival de música internacional Lollapalooza, em março. Durante a apresentação, a mais importante da carreira dele até aquele momento, Oruam vestiu uma camiseta com a foto do pai e um pedido de “liberdade” — Marcinho VP está condenado a uma pena de 36 anos de cadeia por homicídios e associação criminosa mas, devido a imbróglios legais, a soltura dele está prevista para outubro deste ano. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) tenta uma nova condenação antes disso.
Pai de Oruam, Marcinho VP pode ser solto em outubro.
Após o que foi considerado por muitos uma afronta ao Estado de Direito e apologia ao crime organizado, as coisas começaram a desandar para o funkeiro carioca — e as autoridades, a prestar mais atenção nele. Nas redes sociais, Oruam dobrou a aposta e continuou pedindo liberdade para o pai.
Três meses depois, um festival em Portugal cancelou a apresentação dele, assim como um festival de Recife. No Rock in Rio, em setembro daquele ano, o cantor fez sua última apresentação em um grande evento. Lá, ao lado de Orochi e Chefin, não fez nenhuma alusão ao pai.
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Foragido, Oruam pode estar sendo protegido pelo Comando Vermelho no Rio ou escondido no Ceará
Há cerca de um ano, em fevereiro de 2025, o cantor foi preso pela primeira vez. Ele teria tentado fugir de uma blitz policial com seu carro, foi detido e autuado em flagrante por direção perigosa — ele foi liberado horas depois com pagamento de fiança.
Cerca de uma semana depois, a polícia encontrou um fugitivo da Justiça escondido na mansão dele, na Barra da Tijuca, durante uma operação para investigar o disparo de arma de fogo pelo cantor meses antes. Ele foi preso junto com o amigo por dar abrigo a criminoso em fuga e por uma pistola ilegal encontrada na residência, e novamente foi solto para responder em liberdade.
Já na mira da polícia e da Justiça, Oruam viu sua situação piorar em meados do ano passado. De acordo com a denúncia do MP-RJ, aceita pela Justiça do Rio, durante uma operação da Polícia Civil na casa de Oruam para cumprimento de ordem judicial de busca e apreensão de um menor que teria praticado atos análogos ao tráfico de drogas e crimes patrimoniais, o rapper e outras sete pessoas arremessaram pedras de grande peso e volume nas vítimas.
Oruam, agora foragido, é réu por tentativa de homicídio qualificado praticado contra o delegado Moyses Santana Gomes e o oficial Alexandre Alves Ferraz, ambos da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro. Além de Oruam, Willyam Matheus Vianna Rodrigues Vieira, Pablo Ricardo de Paula Silva de Morais e Victor Hugo Vieira dos Santos são réus no mesmo processo.
Ele havia sido solto novamente em setembro, mediante uso de tornozeleira eletrônica e medidas cautelares, por um habeas corpus do STJ que agora foi revogado. A defesa nega as acusações.
Enquanto isso, a Polícia Civil do Rio de Janeiro segue em busca do cantor foragido — fontes na polícia carioca com conhecimento sobre o andamento das investigações dizem à Gazeta do Povo que a equipe responsável por localizá-lo trabalha com a hipótese mais provável de ele estar escondido em alguma comunidade dominada pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro, Baixada Fluminense ou mesmo no estado do Ceará.
Fonte: Gazeta do Povo



