domingo, 26 abril, 2026

Renaturalização de igarapés é alternativa contra alagamentos em Manaus

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Especialistas defendem restaurar características naturais e integrar medidas de saneamento e habitação

Estima-se que cerca de mil igarapés recortam Manaus, formando um sistema hidrográfico que alimenta grandes bacias urbanas como as do Mindu e do Quarenta, hoje em alto estágio de contaminação, e os igarapés Puraquequara e Tarumã-Açu, que delimitam os setores Leste e Oeste da cidade, segundo dados da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

A relação entre Manaus e seus rios começou a se romper ainda no final do século XIX. Entre 1892 e 1900, sob o governo de Eduardo Ribeiro e inspirada nas reformas urbanas de Paris, a cidade passou a aterrar igarapés em nome da modernização. O Igarapé do Espírito Santo, que corria pelas margens do Teatro Amazonas, desapareceu sob o que hoje é a Avenida Eduardo Ribeiro. Por trás das obras, além da estética europeia, havia uma justificativa sanitária: os igarapés eram vistos como criadouros de mosquitos e vetores de doenças.

A urbanização acelerada do século XX aprofundou o processo, com a implantação da Zona Franca, a partir de 1967, Manaus saltou de cerca de 250 mil para mais de 2 milhões de habitantes em poucas décadas. Conjuntos habitacionais foram erguidos desconsiderando os trechos de rio presentes nas áreas, e populações de baixa renda foram progressivamente empurradas para os fundos de vale, justamente onde os igarapés correm e as enchentes chegam primeiro.

Quando o rio vira risco

Foto: Divulgação

Alda Bentes mora em um beco sem saída próximo ao igarapé do Núcleo 11, no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus. Quando chove, não precisa olhar pela janela para saber o que vai encontrar. “Morar perto de um igarapé se tornou morar em uma área de risco, em uma área que não é bem vista, não é bem localizada, fora o mau cheiro. Hoje você sabe que está passando próximo a um igarapé pelo cheiro. Ele já é reconhecido em vários pontos da cidade”, diz ela.

O que Alda descreve tem explicação técnica e histórica. Para o professor de geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Thiago Neto, a degradação dos igarapés seguiu uma sequência precisa ao longo do tempo: primeiro a retirada da cobertura florestal, depois o aterramento das várzeas e, por fim, a retificação dos cursos d’água. Cada etapa aumentou a exposição da cidade às chuvas e empurrou os mais vulneráveis para as áreas de maior risco.

“Parcelas socialmente vulneráveis da população passaram a ocupar os fundos de vale, onde se localizam os igarapés, ficando mais expostas às dinâmicas de inundação. Assim, os igarapés tornam-se áreas de risco, resultado direto das transformações urbanas ocorridas ao longo dos últimos 60 a 80 anos”, explicou Thiago Neto.

O agravamento também tem um componente invisível: o esgoto. Manaus possui apenas cerca de 40% de cobertura de tratamento de esgoto, e o que é coletado é lançado sem tratamento na orla da cidade, de acordo com dados do Inpa. Todos os igarapés que cortam a área urbana estão contaminados, segundo pesquisadores do instituto. O último considerado limpo em área urbana, o igarapé da Água Branca, já enfrenta pressão crescente da urbanização ao redor.

O que a renaturalização propõe

Diante desse cenário, a renaturalização de rios urbanos tem ganhado espaço como estratégia de adaptação climática. O conceito propõe restaurar características naturais de cursos d’água degradados, leitos menos canalizados, margens vegetadas, reconexão com áreas de inundação e já começa a ser debatido e testado em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Em Manaus, ainda é quase ausente da agenda pública.

A engenheira florestal Fabiana Rocha explicou por que o modelo atual de urbanização piora os alagamentos. “A canalização dos igarapés transforma sistemas naturais complexos em canais artificiais e estreitos, sujeitos ao assoreamento. A impermeabilização das superfícies impede a infiltração no solo, resultando em aumento significativo do escoamento superficial. A água corre para os igarapés já sobrecarregados, elevando rapidamente o nível e provocando transbordamentos”, afirmou.

A vegetação nas margens tem papel central nessa equação. Raízes estruturam o solo, evitam erosão e reduzem a velocidade com que a chuva atinge o terreno. Solos permeáveis, comuns em ambientes florestais, permitem que parte da água seja absorvida temporariamente, contribuindo para a recarga dos aquíferos e reduzindo os picos de vazão nos momentos de chuva intensa, segundo Fabiana. 

Um estudo de pesquisadores da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) sobre renaturalização de rios urbanos na região metropolitana de São Paulo demonstrou que a técnica é viável mesmo em grandes cidades, desde que precedida de estudos locais e integrada ao planejamento urbano. 

O conceito abrange desde a reabertura de leitos até a implantação de jardins de chuva, telhados verdes, valetas vegetadas e pequenas bacias de retenção, infraestruturas que retêm temporariamente a água e favorecem sua infiltração no solo.

Natureza não basta sem política

Mas especialistas são unânimes em um ponto: recuperar igarapés sem mudar a estrutura urbana em torno deles não resolve o problema. Para o professor Thiago Neto, a renaturalização em Manaus precisa ser pensada dentro de um contexto mais amplo, que começa por medidas que nenhuma obra de engenharia verde substitui.

“É fundamental garantir moradia digna à população, reduzindo a ocupação de áreas ambientalmente frágeis, como os fundos de vale. Além disso, é necessária a ampliação da capilaridade dos serviços de coleta de resíduos sólidos em muitas áreas, caminhões convencionais não conseguem acessar becos e vias estreitas, e parte dos resíduos são transportados pelas chuvas até os igarapés”, detalhou.

Fabiana Rocha reforçou a mesma ideia pelo ângulo técnico. “A recuperação de rios e igarapés, embora essencial, não resolve o problema isoladamente. Ela deve ser integrada a um conjunto mais amplo de transformações urbanas, planejamento do uso do solo, ampliação de infraestruturas verdes, melhoria dos sistemas de drenagem e políticas habitacionais para as áreas sujeitas a alagamentos”, diz a engenheira. 

Para ela, o objetivo é construir “uma cidade que trabalhe com a água, e não contra ela.”

Esse reequilíbrio é urgente também porque o clima não vai esperar. Dois estudos recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a Amazônia já vive, no presente, cenários antes projetados para décadas à frente: estações secas que podem se estender de quatro para até seis meses, aumento de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal durante a seca extrema de 2023 e 2024. 

A mesma região que afoga bairros na estação chuvosa resseca perigosamente nos meses de estiagem, dois extremos com a mesma raiz: um ambiente urbano que perdeu a capacidade de regular a água.

Diante disso, o professor Thiago Neto é direto sobre o que acontece se nada mudar. “A tendência é de agravamento dos problemas já existentes, sem intervenções estruturais, é provável a recorrência de episódios de alagamentos mais intensos, com perdas materiais e impactos diretos sobre grupos socialmente vulneráveis. Esses eventos não devem ser compreendidos como desastres naturais, mas como desastres sociais”, finalizou.

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Fonte: Em Tempo

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