A última peça que faltava no tabuleiro para a formação das chapas na eleição para governador em Minas Gerais foi encaixada, ou quase, nesta semana — e não é em uma posição como se esperava para concorrer ao governo do segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo.
Indicado como preferido na intenção de voto do eleitor para o cargo de próximo governador em Minas, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) “perdeu a oportunidade”, nas palavras do presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira.
Como três presidenciáveis — presidente Lula (PT); senador Flávio Bolsonaro (PL); e o ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo) — falharam em montar chapas com candidatos próprios fortes no estado, e sem o senador mineiro, o que sai das convenções partidárias é um cenário eleitoral completamente imprevisível, sem nenhum favorito claro ao Palácio Tiradentes, sede do governo de Minas Gerais.
“Mesmo sem prova pública de uma barganha específica, a sucessão de movimentos produz a nítida percepção de que a principal candidatura de Minas está sendo usada como moeda de troca em negociações envolvendo alianças, palanque presidencial, chapas proporcionais e vagas ao Senado”, avalia o cientista político Samuel Oliveira, sobre as idas e vindas no Republicanos de Minas.
“A eleição mineira, portanto, tornou-se imprevisível não apenas pela ausência do antigo líder, mas porque Lula, Zema e Flávio Bolsonaro ainda não conseguiram transferir sua força para candidaturas estaduais competitivas. Nesse ambiente, estabilidade pode se tornar um ativo eleitoral mais importante do que padrinho nacional”, diz Oliveira à Gazeta do Povo.
“Paradoxalmente, depois de tantas negociações de bastidor, pode vencer quem convencer o mineiro de que possui uma candidatura de verdade, e não apenas um nome provisório sobre a mesa de negociação”, acrescenta ele.
Poucas horas separaram decisões antagônicas de Cleitinho
Cleitinho adiou até o último momento o lançamento de sua candidatura a governador pela eleição de Minas. Na segunda-feira (3), um dia antes da convenção nacional do Republicanos em Brasília, o senador anunciou em vídeo publicado em suas redes sociais que havia desistido de concorrer por conta de problemas pessoais.
Um irmão do senador, Matheus Azevedo, morreu recentemente, em 18 de julho, em decorrência de complicações de uma doença grave. Durante a convenção partidária no dia seguinte, no entanto, Cleitinho voltou atrás e pediu mais uma chance.
No discurso, ele disse que havia desistido em um momento de fragilidade emocional, em meio ao luto pela morte do irmão caçula, e pediu ao presidente nacional da legenda que a decisão do partido fosse revista. “Eu quero ser candidato a governador e peço humildemente ao presidente que nos dê essa vaga”, disse.
“Eu não vou decepcionar o partido, não vou decepcionar o senhor, presidente. Vou aumentar essa bancada mineira dentro do partido e trabalhar principalmente pelo povo mineiro”, completou Cleitinho, na mesma ocasião.
Em resposta no mesmo evento, logo após o pedido do correligionário, Pereira afirmou que “foi dada a oportunidade ao senador Cleitinho de comparecer à convenção estadual no dia 25 de julho e se declarar candidato a governador do bravo estado de Minas. Não sendo possível o comparecimento, ele poderia se fazer representar por procuração, o que é legalmente permitido”, disse. Dias depois, reafirmou a posição em um vídeo nas redes sociais.
Dificuldade na escolha para a eleição a governador em Minas foi similar para o PT
Nos bastidores, pessoas próximas a Pereira dizem que ele ainda está aberto a uma candidatura própria de Cleitinho pelo partido, mas, depois de o senador mudar de ideia sobre o tema pelo menos três vezes em um espaço curto de tempo, o presidente da sigla não teria a confiança necessária de que ele não possa desistir de novo na sequência.
Agora, o partido trabalha com as possibilidades de lançar outro nome próprio ou apoiar a chapa governista. O impasse do Republicanos é mais um malogro nas articulações de alguns dos principais partidos por uma chapa competitiva ao governo do estado de Minas para esta eleição.
No caso do PT, o drama não é menor. O candidato do partido, Patrus Ananias, era a terceira opção na lista petista. O presidente Lula e seu partido apostaram até o fim em um palanque centrista, encabeçado pelo ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB).
Com a desistência dele, a sigla ficou sem opção e decidiu lançar uma candidatura própria. Instada a abandonar a corrida pelo Senado, onde figura com boas chances de se eleger, e assumir a tarefa do que parecia ser uma “candidatura de sacrifício”, a ex-prefeita de Betim Marília Campos (PT) não aceitou a missão.
Eleição a governador em Minas deixa campo aberto para quem pode chegar ao segundo turno
Com a saída de Cleitinho, pelo lado da direita a situação das chapas não ficou melhor. A situação de Romeu Zema e seu sucessor no governo do estado, Mateus Simões (PSD), é emblemática. Mesmo após assumir o Palácio Tiradentes, Simões não conseguiu decolar entre os eleitores, e segue para a eleição como azarão, ao menos até o momento, mesmo com a máquina de governo estadual na mão.
Flávio Bolsonaro esperou até o fim para fechar seu palanque presidencial no estado, e o PL local mostrou indecisão durante todo o processo. Após o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) descartar uma candidatura, o PL tendia a fechar uma aliança com o Republicanos e Cleitinho. Como a chapa com o senador não saiu, o PL de Minas recorreu à solução caseira de Flávio Roscoe, em grande medida desconhecido pelo eleitor mineiro.
Pesquisa Quaest de intenção de votos divulgada no dia 28 de julho mostrava que Cleitinho liderava o cenário em que aparecia, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Em seguida, estão Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias e Mateus Simões:
- Cleitinho Azevedo (Republicanos): 35%
- Alexandre Kalil (PDT): 12%
- Patrus Ananias (PT): 10%
- Mateus Simões (PSD): 6%
- Gabriel Azevedo (MDB): 4%
- Ben Mendes (Missão): 2%
- Flávio Roscoe (PL): 2%
- Maria da Consolação (PSOL): 1%
- Jarbas Soares Júnior (PSB): 0%
- Rafael Duda (PSTU): 0%
- Túlio Lopes (PCB): 0%
- Indecisos: 15%
- Branco/nulo/não vai votar: 13%
No principal cenário testado sem Cleitinho, quem lidera é Kalil, mas o alto número de indecisos e a pouca distância em pontos percentuais para os outros colocados não o colocam na posição de favorito e ainda indicam que a corrida do primeiro turno está aberta:
- Alexandre Kalil (PDT): 15%
- Patrus Ananias (PT): 13%
- Mateus Simões (PSD): 9%
- Gabriel Azevedo (MDB): 6%
- Flávio Roscoe (PL): 4%
- Ben Mendes (Missão): 2%
- Maria da Consolação (PSOL): 1%
- Rafael Duda (PSTU): 0%
- Túlio Lopes (PCB): 0%
- Indecisos: 27%
- Branco/nulo/não vai votar: 23%
O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos e ouviu 1.482 eleitores de 16 anos ou mais entre os dias 22 e 26 de julho. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número MG-034/90/2026.
Fonte: Gazeta do Povo




