
Rafaela Pimenta, agente de estrelas como Erling Haaland (Manchester City) e Matthijs de Ligt (Manchester United), concedeu neste domingo uma longa entrevista à emissora britânica BBC Sport, na qual abordou diversos temas, começando pela forma como o futebol ainda é dominado por homens.
“Quando comecei a trabalhar com isso, anos atrás, havia pouquíssimas mulheres em cargos de tomada de decisão. Havia a Marina [Granovskaia], no Chelsea, mas, no geral, dava para contá-las nos dedos das mãos. O que eu via eram mulheres trabalhando nos clubes e fazendo muitas coisas ligadas à tomada de decisões, mas sem serem reconhecidas como tal”, afirmou inicialmente.
“Era como um corredor, sempre a mesma coisa: observação, área técnica, secretaria e tomada de decisões. Você passava por todo mundo e chegava à última porta. Atrás dessa última porta, havia um homem”, acrescentou Rafaela Pimenta, que herdou o “império” do italiano Mino Raiola após a morte dele, em 30 de abril de 2022.
“Ele dizia que eu era a única pessoa que dizia ‘não’ para ele. Como todos os outros só queriam o dinheiro dele, acabavam dizendo ‘sim’ aos projetos mais malucos. Eu achei que isso duraria cinco minutos. Acabou durando 35 anos”, completou.
“Você existe mesmo. Achei que fosse uma prostituta vinda do Brasil”
Rafaela Pimenta reconheceu, ainda assim, que o cenário do futebol já foi pior:
“Percorremos um longo caminho desde a primeira reunião que tive com um diretor esportivo, que me disse: ‘Você existe mesmo. Achei que fosse uma prostituta vinda do Brasil’, até o ponto em que estamos hoje. Mas muitos homens ainda usam o gênero para tentar nos desestabilizar.”
“Eles falam pelas minhas costas para me fazer sentir frágil ou com menos poder”, lamentou. Para ilustrar essa postura, ela relembrou o beijo dado pelo então presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), Luis Rubiales, em Jenni Hermoso, após a conquista da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023.
“Será que ele teria beijado o [Lionel] Messi na boca ou no rosto ao entregar um troféu? Se tivesse feito isso, não teria sido demitido imediatamente? Não se trata apenas do ato em si, que já é chocante, mas do fato de terem demorado tanto para tomar aquela decisão”, criticou.
“Em algumas pessoas, está tão enraizada a ideia de que mulheres são inferiores aos homens ou de que mulheres não entendem de futebol… Elas querem ser simpáticas com você, mas, mesmo quando são simpáticas, acabam te prejudicando. Eu não aceito isso. Já não luto apenas por mim — as pessoas me respeitam o suficiente —, mas pelas meninas que estão chegando agora”, prosseguiu.
“Eu não quero que elas passem pelo que eu passei. Se eu puder tornar as coisas um pouco mais fáceis para elas, eu farei. Sou professora nos cursos de agentes da UEFA, e as mulheres vêm até mim e perguntam: ‘Você tem algum conselho?’. Sim: não aceitem abusos. Você não precisa se sexualizar para ser alguém nesta indústria”, concluiu.
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Fonte: Notícias ao Minuto
