Nos primeiros 28 dias de janeiro, Manaus acumulou 334,2 milímetros de chuva em 2026, superando a média histórica do mês, que é de 305,6 mm, segundo dados da estação convencional do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Em 2025, no mesmo período, a capital amazonense registrou 222 milímetros, abaixo da média. O aumento das precipitações eleva o nível dos rios do Amazonas e pode resultar em uma grande enchente, em contraste com as severas secas enfrentadas pelo estado nos últimos anos.
Esse volume de chuvas passou a impactar diretamente o nível do Rio Negro a partir do dia 21, quando a elevação diária ultrapassou os 3 centímetros. No dia 27, o rio chegou a subir 10 centímetros em apenas 24 horas. Já até o dia 29, o nível acumulou mais 6 centímetros, atingindo a marca de 22,67 metros.
Fortes chuvas

Mas o que explica as chuvas intensas registradas em Manaus neste período? A meteorologista do Inmet, Andrea Ramos, afirma que a combinação de diferentes fatores contribui para o cenário enfrentado pela população manauara neste início de ano.
“A tendência nesse período sempre é de mais chuvas. Uma outra situação é a própria termodinâmica local. O calor e a umidade favorecem muito a essa questão de formação de nuvens de tempestades, que a gente chama de cumulonimbus. E, a partir daí você tem aquela tendência de chuvas para acontecer sempre à tarde, mas como tem várias condições meteorológicas atuando, tem essa tendência de ir pela noite, manhã, acordar e estar com chuva“, explica.
Outros fatores que influenciam as chamadas “tempestades amazônicas” são o deslocamento da ZCIT (Zona de Convergência Intertropical) e a atuação do fenômeno climático La Niña. Embora este último tenha uma influência menos intensa, ele ainda contribui para o aumento das chuvas na região.
“A La Niña, por mais que ela esteja de fraca intensidade e uma rápida frequência, ela mexe também com o Amazonas, porque ela também traz chuva, ela aumenta as chuvas na região norte, não em toda a região, mas em partes da região norte, e diminui as chuvas na região sul, esse é o sinal da La Niña“, apontou a meteorologista.
No último dia 21, a forte chuva que atingiu a capital amazonense provocou um deslizamento de terra em um barranco, destruindo a casa de um morador no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste. Uma mulher grávida de sete meses sofreu ferimentos leves.
Dentro da normalidade

Apesar do grande acúmulo de chuvas, a elevação do nível do Rio Negro segue dentro da normalidade, segundo o 4º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas, divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).
“O rio Negro continuou respondendo às chuvas ocorridas nas três últimas semanas e o quadro permanece com níveis dentro da normalidade nas estações monitoradas. Em Manaus, o rio Negro já apresentou resposta à recuperação iniciada há 20 dias em Tabatinga e subiu cerca de 45 centímetros na última semana“, apontou o relatório.
A mesma situação foi observada na Bacia do Rio Amazonas, já que, segundo o material, “as estações monitoradas no rio Amazonas apresentaram um ritmo de subida similar ao observado em Manaus e dentro do esperado para este período do ano. Os níveis continuam próximos das médias, tendo por base as séries históricas de dados destas estações“.
Na Bacia do Rio Solimões, a calha registrou elevação do volume de água ligeiramente acima da média, mas ainda dentro dos patamares esperados.
“Em Tabatinga, o processo de recuperação do nível do rio se configurou como uma forte subida, na ordem de 3,35 metros no acumulado, superando a cota de 10 metros. Este patamar se encontra dentro dos valores esperados para a época, levemente acima da média para o período, de acordo com a série histórica de dados“, diz o material.
Grande enchente?

Com elevações dentro do esperado e níveis próximos das médias históricas para o período, o pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Andre Martinelli, afirmou ao Em Tempo que, segundo o monitoramento do órgão, não há qualquer anomalia nos níveis dos rios. No entanto, é preciso acompanhar o comportamento das águas nos próximos meses.
“A hipótese de uma grande cheia nunca é descartada, entretanto, não há indícios hoje que apontem para uma confirmação. Ademais, ainda é cedo para qualquer afirmação sobre magnitude da cheia, que terá sua previsão informada em 31/03/26, durante o primeiro alerta de cheias“, enfatizou.
Operação Cheia 2026

No último dia 23, a Defesa Civil do Amazonas realizou uma reunião técnica de alinhamento com as coordenadorias municipais para reforçar a preparação para a Cheia 2026.
Embora as coordenadorias já atuem de forma independente, considerando as particularidades de cada região, o encontro teve como objetivo aumentar a integração entre os municípios e o Estado. Com base no monitoramento contínuo, as estratégias foram aprimoradas para otimizar a mobilização de recursos, o acompanhamento dos níveis dos rios e a logística de assistência humanitária.
Atualmente, quatro municípios estão em situação de atenção, 10 em situação de alerta e 48 em situação de normalidade.
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Fonte: EmTempo
