sexta-feira, 2 outubro, 2026

Caso Nossa Senhora Aparecida pôs direita na defensiva, diz socióloga

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O pugilato eleitoral em torno de Nossa Senhora Aparecida atiçou tanto a direita quanto a esquerda nas redes sociais evangélicas.

Se tivesse que apontar um lado vencedor nessa guerra de narrativas, dessa vez o campo progressista pode ter levado a melhor, diz Andréa Laís, doutora em ciências sociais e pesquisadora na Casa Galileia.

Essa organização civil promove pesquisas e campanhas para o segmento cristão. Uma das suas frentes atuais é produzir quinzenalmente o relatório Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque.

O projeto acompanha publicações sobre religião e política no ecossistema evangélico, concentradas em 469 perfis digitais vinculados ao tema. O levantamento mais recente analisou publicações entre os dias 14 e 27 de setembro e detalha como os dois espectros políticos integraram a polêmica à corrida eleitoral.

O monitoramento dessas contas acontece desde junho, “e foi a primeira vez que a extrema-direita foi pautada e precisou responder a narrativas propostas pela esquerda”, afirma Laís. “As lideranças políticas e religiosas bolsonaristas repercutiram muita preocupação com o caso, o que pode indicar que leram o caso como uma possível vitória. Nesse caso, da esquerda”, afirma a socióloga.

Escudeiros de Flávio Bolsonaro (PL) correram para desarmar a fake news de que ele defenderia um projeto de lei para remover Aparecida do posto de padroeira nacional. O PL em questão foi arquivado em 2008 e apresentado um ano antes pelo deputado-pastor Victório Galli, que viraria assessor de seu pai na Presidência 12 anos depois e hoje tenta voltar à Câmara pelo PP-MT.

A mesma notícia falsa circulou já em 2018, ainda que com menos tração, contra Jair Bolsonaro (PL). Não há evidências de que Flávio fez qualquer movimento para reativar o PL morimbundo.

A ideia de que poderia fazê-lo ganhou força após uma declaração que o presidenciável deu em agosto se voltar contra ele a dias do primeiro turno. Flávio disse na ocasião que, se eleito, iria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A construção, tipicamente pentecostal, foi interpretada por muitos como sinal de que um eventual governo seu privilegiaria evangélicos -questionado sobre a fala, ele afirma agora que foi apenas “uma forma figurada de ressaltar a importância da paz, da proteção e da esperança que, sob a Presidência de Flávio, voltarão a ocupar espaço na vida dos brasileiros”.

Flávio mencionou o decreto de carga espiritual num vídeo em que justificou sua ausência num debate da Band. Não iria porque Lula (PT) também faltaria, e ele gostaria de debater “com quem não acredita em Deus”, disse então. Ele também explorava uma fake news: a de que o petista seria ateu, a partir de um corte malicioso de uma fala pública do presidente –Lula falou sobre haver “gente que não acredita em Deus”, para logo em seguida reforçar sua crença.

A defesa de Flávio no imbróglio que arrastou Aparecida para a berlinda eleitoral veio acompanhada de ataques à imprensa e denúncias de uma suposta guerra religiosa em curso.

Uma postagem em que o filho de Jair nega a intenção de retirar o título de padroeira alcançou 857,5 mil interações, enquanto portais evangélicos e líderes como o deputado Sóstenes Cavalcante (PL), ex-presidente da bancada evangélica e membro da igreja de Silas Malafaia, repercutiram o desmentido e a retratação da GloboNews, sob legendas como “Globo pede desculpas por fake news com evangélicos”.

O canal veiculou na semana passada, e depois se desculpou por ele, um comentário sobre setores católicos estarem preocupados com uma parcela evangélica mobilizada para resgatar um projeto de lei contra a padroeira. A jornalista não fez, contudo, qualquer referência a Flávio.

Páginas como Assembleianos de Valor Oficial interpretaram o episódio como uma manobra para afastar eleitores católicos de Flávio, e outros conteúdos realçaram a presença do candidato ao lado da imagem da santa em aparições públicas.

Houve também uma carta aberta do Cimeb (Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil), assinada por lideranças de peso no segmento, como Malafaia, Cláudio Duarte, Teo Hayashi e Robson Rodovalho. A nota acusa Lula e seus apoiadores de espalhar informações falsas para “atingir um adversário político e, o mais grave, promover uma guerra religiosa entre católicos e evangélicos”.

Na esquerda, perfis como Evangélicos com Lula repudiaram a instrumentalização da fé na política e apelaram pela união entre católicos e evangélicos.

O deputado André Janones (Rede-MG), que é evangélico e no passado frequentava a Igreja Batista da Lagoinha, fez um vídeo em tom histriônico, que vem adotando na maioria das postagens eleitorais.

Na gravação, ele relembra o papel histórico da Igreja Católica na fundação do PT e cita o episódio do “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal deu pontapés numa estátua de Aparecida em 1995, chamando-a de “bicho feio”. Anos depois, o mesmo líder religioso, já fora da igreja, endossaria a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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