
O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD) começou a campanha caminhando para uma eleição tranquila ao governo do estado, com chances reais de uma vitória confortável ainda no primeiro turno. Pelo menos, é o que indicavam até pouco tempo atrás as principais pesquisas de intenção de voto.
Não era para menos: com o nome consolidado, colocado como candidato na disputa e apoio de seu partido há mais de um ano, Paes fez pré-campanha sozinho por meses e viu cair em desgraça alguns dos principais potenciais adversários nas eleições deste ano, pertencentes ao grupo político do ex-governador Cláudio Castro (PL) — a começar pelo próprio Castro.
Nesta semana, O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) abriu um inquérito para investigar possíveis irregularidades na criação de milhares de cargos comissionados durante a gestão do ex-governador Cláudio Castro, entre janeiro de 2023 e março de 2026. Segundo relatório preliminar do MP, o número de vínculos de servidores comissionados aumentou 47,3% no período, passando de 9.736 para 14.340.
O ex-governador fluminense também foi alvo de duas operações da Polícia Federal neste ano, uma delas em agosto, sobre fraudes no setor de combustíveis, e foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral — o que fulminou suas pretensões de sair candidato a senador.
Antes disso, um dos principais aliados de Castro e indicado como sucessor natural no pleito ao governo do estado nas eleições deste ano, o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), foi afastado do cargo público e preso, acusado de envolvimento com o Comando Vermelho. Tanto Castro quanto Bacellar seguem sendo investigados e negam qualquer irregularidade, mas não conseguiram viabilizar apoio para suas candidaturas.
Direita se reorganiza e fortalece candidatura de Ruas contra Paes
Paes, por sua vez, além do trânsito na centro-esquerda, vinha de uma gestão bem avaliada frente à prefeitura da capital. Arrasta (ou arrastava) um quinhão dos votos da centro-direita carioca, e possui forte interlocução e apoio de lideranças evangélicas importantes no estado.
Com o apoio oficial do PT estadual e tácito do presidente Lula à esquerda — o PT não lançou candidato ao governo do estado e não apoia o nome do PSOL — e um caminho aberto até os eleitores mais à direita, não parecia ter como dar errado.
Ao longo das últimas semanas, no entanto, o cenário se turvou e ficou mais acirrado para o candidato do PSD no Rio de Janeiro. Adversários menores, que disputam votos importantes na mesma seara que ele, se multiplicaram, roubando preciosos pontos percentuais nas sondagens mais recentes de intenção de voto para o primeiro turno.
Mais que isso, a direita se reorganizou principalmente em torno do nome de Douglas Ruas (PL), que mostrou uma candidatura forte. Assim, a chance de vitória no primeiro turno ficou mais distante para Paes nesta reta final do primeiro turno.
De acordo com a pesquisa Real Time Big Data* divulgada nesta quarta-feira (30), a diferença da intenção de voto dos eleitores entre Paes e Ruas está entre cinco e seis pontos percentuais nos dois principais cenários de primeiro turno testados pelos pesquisadores. Um dos cenários traz o nome de Anthony Garotinho (Republicanos), que teve a candidatura indeferida pelo TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro) por unanimidade. Ainda cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da decisão.
No cenário de segundo turno entre Paes e Ruas, o primeiro segue à frente, por uma margem apertada. São cinco pontos percentuais de diferença — no limite na margem de erro para não serem considerados empatados tecnicamente. Paes atinge 41% da preferência dos eleitores, contra 36% de Ruas. Neste cenário, brancos e nulos somaram 10%, e 13% não souberam ou não responderam, um número expressivo que sugere possibilidade de surpresas de última hora.
“O interessante é que o Paes não propriamente perdeu uma eleição que estava ganha”, afirma o cientista político Samuel Oliveira à Gazeta do Povo. “O que aconteceu foi que a oposição finalmente encontrou um candidato. Durante boa parte da campanha, Paes aparecia perto de resolver no primeiro turno porque tinha um eleitorado consolidado e, do outro lado, havia um campo político enorme ainda sem tradução clara na disputa estadual”, diz.
Ruas transforma voto de Flávio em voto para governador
O cientista político avalia que Ruas começou a transformar o voto de Flávio e dos apoiadores do ex-presidente Bolsonaro no geral em voto para governador. Dessa forma, a mudança é menos uma fuga do eleitor de Paes e mais uma consolidação tardia do eleitor que já estava disposto a votar contra ele.
“Isso expõe também uma fragilidade da estratégia de transversalidade de Paes. Enquanto a eleição estava despolarizada, conseguir conversar ao mesmo tempo com Lula e com uma parcela da direita era uma vantagem”, afirma Oliveira.
Para o o cientista político, é essa mudança de natureza da eleição, mais do que uma simples queda de Paes, que explica a disputa acirrada nessa reta final rumo ao primeiro turno. “Quando a disputa se nacionaliza na reta final, identidade política passa a valer mais: Ruas precisa dizer com clareza de que lado está, enquanto Paes precisa administrar uma coalizão eleitoral muito mais contraditória. A eleição do Rio deixou de ser quase um plebiscito sobre a experiência administrativa de Paes e começou a se comportar como uma disputa entre campos políticos”, analisa.
- *Metodologia da pesquisa citada: O RealTime Big Data entrevistou 2.000 eleitores no estado do Rio de Janeiro entre 25 e 29 de setembro. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento foi realizado com recursos próprios e registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número RJ-08712/2026.
Fonte: Gazeta do Povo
