A cheia do Rio Ribeira de Iguape, no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, atingiu cerca de 11 milhões de pés de banana e deixou um prejuízo estimado em R$ 175 milhões na produção agrícola. O impacto ocorreu na principal região produtora de banana do estado paulista, que liderou o país em valor da produção da fruta em 2025, de acordo com o IBGE.
Em estimativa inicial, a Associação dos Bananicultores do Vale do Ribeira (Abavar) calcula mais de 7 mil hectares a área alcançada pelas águas e em R$ 210 milhões o valor necessário para a recuperação das áreas afetadas, números que ainda podem mudar.
“A estimativa é feita com base em um levantamento que fizemos com a Embrapa sobre as áreas produtoras próximas ao Rio Ribeira”, afirma Rafael Peniche, secretário da Abavar. Ele acrescenta que ainda há locais sem acesso e até bananais debaixo d’água “Então, o tamanho real da perda só será conhecido posteriormente”.
As chuvas começaram na primeira quinzena de setembro e, de acordo com o presidente do Sindicato Rural do Vale do Ribeira, Jairo Adilson de Oliveira, o Rio Ribeira de Iguape atingiu o pico da cheia no dia 16. Eldorado, Sete Barras e Registro estão entre os municípios mais afetados. Somente em Registro, aproximadamente 1,5 mil hectares de banana foram atingidos, de acordo com Oliveira.
Nem toda planta alcançada pela água está perdida. Parte dos produtores tentará recuperar os bananais com adubação e outros tratos depois que a água baixar. Como a banana é uma cultura permanente, colhida durante todo o ano, parte do impacto ainda deve aparecer nos próximos meses.
“Existe o prejuízo momentâneo da perda, onde não pode ser feita a colheita”, afirma Oliveira, em entrevista à Gazeta do Povo. De acordo com ele, os reflexos da enchente sobre algumas áreas ainda poderão ser sentidos em cerca de três meses.
Crédito é principal demanda para recuperar a produção
No último dia 18, o governo federal anunciou R$ 6,8 milhões em repasses para municípios paulistas atingidos pelas chuvas. Desse total, cerca de R$ 2,8 milhões foram destinados às cidades afetadas pela cheia do Rio Ribeira de Iguape. O pacote federal inclui ajuda humanitária, reconstrução, envio de cestas básicas, recursos para alimentos e possibilidade de saque do FGTS por trabalhadores atingidos.
O governo de São Paulo, por sua vez, anunciou no dia 24 uma linha emergencial de crédito de R$ 10 milhões por meio do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap). Cada produtor poderá financiar até R$ 150 mil, com juros de 3% ao ano, prazo de até 72 meses e carência de até 24 meses.
Os recursos estaduais poderão ser usados para replantio, compra de insumos e recuperação da estrutura produtiva. A medida atende a uma das principais demandas apresentadas pelos produtores rurais: necessidade de crédito, num cenário de juros altos.
A resposta dos dois governos ocorre na reta final da campanha eleitoral. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, esteve na região após a cheia. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que apoia Fernando Haddad (PT) na disputa pelo governo do estado, também foi ao Vale para anunciar medidas federais.
Crédito caro pressionava produtores antes da enchente
Já em maio, produtores rurais enfrentavam financiamentos com custo efetivo de até 20%, de acordo com Pedro Lupion (PP-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. As dificuldades do produtor são agravadas com o cenário de juros altos, crédito escasso, insumos caros, frete e diesel elevados e dificuldades na obtenção de fertilizantes.
“Os produtores estão evitando crédito porque os juros estão muito altos para a atividade agrícola. Ao mesmo tempo, os insumos também encareceram, principalmente adubos e outros produtos importados, que acabam sendo afetados pelas guerras”, afirma Oliveira.
Apesar da dimensão dos danos, o presidente do Sindicato Rural do Vale do Ribeira não prevê desabastecimento de banana. De acordo com ele, outros municípios produtores do Vale não sofreram o mesmo grau de impacto, e ainda não é possível saber quanto das áreas alagadas será efetivamente perdido.
Fonte: Gazeta do Povo

