A chuva que caiu na tarde de quarta-feira (25), em poucas horas, acumulou 160 milímetros em Manaus, o maior volume registrado desde 2020. O temporal alagou ruas em pelo menos seis bairros, provocou deslizamentos de barrancos e obrigou o Corpo de Bombeiros a utilizar botes para resgatar famílias ilhadas no bairro União da Vitória, na Zona Oeste. Só nessa área, cerca de 30 ruas foram afetadas após o transbordamento de um igarapé.
O bairro Santa Etelvina, na zona Norte, registrou o maior acumulado, com 161,8 milímetros de chuva. Na sequência aparecem União (70,2 mm), Cidade de Deus (68,9 mm) e Redenção (59,2 mm). Duas escolas municipais foram adaptadas como abrigos provisórios. Ao todo, 36 famílias receberam assistência direta e cerca de 150 pessoas foram atendidas por equipes da Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil (Sepdec).
Nos dias seguintes, os impactos persistiram. No sábado (28), outras 19 ocorrências foram registradas em diferentes zonas da capital. O igarapé do Quarenta concentrou a maior precipitação do dia, com 39,6 mm, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), seguido pelo bairro da União, com 32,4 mm.
Morador da rua Adriano Barroso, no bairro Nova Esperança, Zona Oeste, Adriel Arante, de 20 anos, relatou que os alagamentos são antigos, mas se agravaram com o tempo. Segundo ele, até meados de 2015 e 2016, havia ações mais frequentes de dragagem e manutenção. “Hoje, as ruas ficam completamente alagadas, e nenhum serviço de limpeza, nada para resolver de verdade é realizado na área”, afirmou.
Durante as chuvas de março, a água invadiu a casa da mãe de Adriel pelo banheiro. “Quem tem a casa mais baixa acaba sofrendo mais danos, e a única ação do poder público no meu bairro foi colocar uma placa de risco, alguns colchões e uma cesta básica e só para algumas pessoas”, contou.
Além dos danos materiais, os alagamentos comprometem a mobilidade urbana e o acesso a serviços essenciais. “A mobilidade das crianças é severamente comprometida, resultando na interrupção das aulas durante o período chuvoso, quando a rua fica intransitável”, finalizou.
Para o especialista em Geografia Urbana, Marcos Castro, o problema vai além das chuvas intensas e reflete falhas estruturais e de gestão. “Não é culpa da chuva ou das águas, que apenas seguem o seu curso, mas do descarte irregular de lixo, da falta de coleta eficiente, sobretudo na drenagem em áreas mais vulneráveis”, pontuou.
Ele destaca ainda que problema tem raízes no próprio modelo de crescimento da cidade. “Manaus cresceu de forma acelerada e sem projeto e planejamento urbanístico prévio. Não se produziu um sistema de drenagem capaz de suportar as chuvas em uma cidade de zona equatorial. É preciso investimento robusto e contínuo, ou continuaremos enfrentando os mesmos problemas”, avaliou.
A avaliação é reforçada pelo pesquisador Elton Andretta, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), que frisa a ocupação irregular das planícies de inundação às margens dos igarapés – as chamadas áreas de risco – como um fator agravante.
“Essas áreas são naturalmente sujeitas a alagamentos periódicos. Intervenções como desmatamento, aterramento e impermeabilização intensificam enchentes e processos erosivos”, explicou.

Para os especialistas, a solução exige planejamento de longo prazo e ações integradas. Andretta defende medidas como controle da ocupação urbana, manutenção do sistema de drenagem, ampliação do saneamento básico, recuperação de matas ciliares e educação ambiental.
Castro ressalta a necessidade de intervenções imediatas, como o mapeamento das áreas críticas e obras de infraestrutura, além da adoção de modelos como o das “cidades-esponja”, que utilizam áreas verdes para absorver o excesso de água.
“O orçamento público para infraestrutura de drenagem precisa ser prioridade em Manaus. Se temos um problema recorrente, é preciso priorizar a solução”, concluiu.

Em situações de risco severo, o sistema Defesa Civil Alerta (DCA) envia notificações automáticas para celulares durante chuvas intensas, sem necessidade de aplicativo.
Para emergências, a população pode acionar o órgão pelo Disque 199 ou pelo WhatsApp (92) 98802-3547, disponíveis 24 horas. A Defesa Civil orienta evitar contato com água de enchente, não se abrigar sob árvores durante tempestades com raios e reduzir a velocidade em vias alagadas.
Paralelamente, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) realiza serviços de limpeza em igarapés, feiras e praças, além de receber denúncias de descarte irregular de lixo. Denúncias de descarte irregular e solicitações de limpeza podem ser feitas pelos números (92) 98842-1202, 98842-4738, 98842-1277 e 98842-1276.
Leia mais: VÍDEO: Moradores são resgatados em bote por bombeiros em rua alagada por chuva em Manaus
Fonte: EmTempo
