O contrabando de ouro no Brasil tem no estado de Roraima um novo eixo de saída do metal precioso do país. A detecção da mudança nas rotas do ouro ilegal foi monitorada pela Polícia Federal (PF), com o reflexo em apreensões a partir de operações conjuntas com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Boa Vista e nas estradas estaduais.
Durante décadas, garimpeiros extraíram ilegalmente toneladas de ouro da Terra Indígena Yanomami e enviaram o metal a outros estados brasileiros como porta de saída para outros países, com documentos falsos. Agora, segundo a PF, o fluxo mudou.
“Identificamos uma mudança na rota do ouro. O estado de Roraima está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, afirmou o delegado da Polícia Federal Caio Luchini, que atua no combate a crimes ambientais em Roraima.
PF intercepta avião e apreende 51 quilos em contrabando de ouro em Roraima
O episódio mais emblemático foi registrado em 2 de dezembro do ano passado. A PF e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aguardavam a chegada de um avião sob monitoramento. O pouso seria na Fazenda Timbó, em uma pista de pouso para pequenas aeronaves, na região da capital Boa Vista.
Em vez de cumprir o plano de voo original e pousar na fazenda, a aeronave alterou a rota e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista. A manobra chamou a atenção dos agentes, que enviaram uma equipe ao terminal. Na abordagem, a PF e a Anac encontraram 51 quilos de barras de ouro sem notas fiscais ou qualquer documento que comprovasse a procedência da carga.
Segundo a PF, o material somava R$ 37 milhões. Em depoimento, os ocupantes da aeronave afirmaram que embarcaram o ouro em Itaituba, no Pará. A cidade é conhecida como um dos principais entrepostos do metal extraído de terras indígenas da região. Eles disseram que participaram de outros voos semelhantes, com transporte de ouro do Pará para Roraima, mas não apontaram os donos da carga milionária.
Apreensões de ouro disparam e expõem rota internacional do garimpo ilegal
Dados da PRF reforçam essa mudança de rota. Entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas estradas de Roraima cresceu 368%. Investigações da PF indicaram que parte expressiva do ouro extraído ilegalmente da Terra Yanomami abasteceu não apenas o mercado nacional, como também o internacional.
Há registros de exportações para países da Europa, da Ásia e para os Estados Unidos. A reserva é a maior do país e abriga cerca de 33 mil indígenas.
A força histórica do garimpo no estado aparece até na paisagem urbana. Um dos principais pontos turísticos de Boa Vista é o Monumento do Garimpeiro, uma estátua de concreto com mais de sete metros de altura e 15 metros de comprimento, erguida na década de 1960. A obra retrata um homem com uma bateia e homenageia milhares de pessoas que migraram para a região em busca de ouro.

Contrabando de ouro impulsiona recorde de apreensões nas estradas de Roraima
Para entrar no mercado formal, esse ouro passa por processos de “esquentamento”, com emissão de notas fiscais fraudulentas. Segundo a PF e a PRF, o ouro extraído em Roraima segue para outros estados, onde opera a estrutura burocrática e logística de organizações criminosas especializadas na lavagem do metal.
Os documentos vinculam o metal extraído em terra indígena a permissões de lavra emitidas em outras regiões. Após a falsificação documental, o ouro segue para comercialização no Brasil ou para exportação.
“Há alguns anos, realizamos diversas operações que identificaram o envio do ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, onde ocorria o esquentamento por meio da confecção de documentações fraudulentas, o que deixava o ouro livre para comercialização”, afirmou Luchini.
Investigadores e especialistas passaram a notar a mudança na rota do ouro clandestino e o novo papel de Roraima como porta de saída do país nos últimos dois anos. “Realizamos diversas apreensões de ouro que vinham do Amazonas e de Rondônia, estados com forte presença de garimpos ilegais, além do Pará”, disse o diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida.
Para a PF, não há indícios de facções na nova rota do contrabando de ouro
Para a delegada Milena Coutinho, chefe do Setor de Repressão a Crimes contra os Recursos Minerais e de Poluição da PF, ainda não existem indícios concretos de atuação de facções como o Comando Vermelho ou o Primeiro Comando da Capital (PCC) nessa nova rota. “Precisamos aprofundar as investigações em curso, mas, neste momento, seria prematuro afirmar isso”, disse.
Segundo a delegada, três fatores explicam a mudança do fluxo do ouro clandestino. O primeiro é a intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, que reduziu a extração ilegal na região. O segundo envolve duas medidas que dificultaram o esquentamento do ouro: a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica na compra do ouro de garimpo e o fim da presunção de boa-fé nesse comércio.
A fiscalização se intensificou em 2023 após uma crise humanitária na Terra Indígena Yanomami. Imagens de crianças, mulheres e idosos subnutridos tiveram repercussão nacional, atribuída por lideranças indígenas e pelo governo ao avanço do garimpo. No mesmo ano, o governo federal instalou a Casa de Governo, em Boa Vista, para combater o garimpo ilegal e ampliar a assistência aos Yanomami.
Desde então, agentes da Polícia Federal (PF), da Força Nacional e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ampliaram as operações na terra indígena. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que, em 2022, antes do cerco às estruturas de lavagem do ouro ilegal, o Brasil exportou 96 toneladas do metal. Em 2025, as exportações caíram para 66 toneladas, uma redução de 31%.
Fonte: Gazeta do Povo


